26 setembro 2010

Outra Manhã. - Parte 7

Não sentia medo da morte física, pois já havia morrido. Foi quando conheci Ray. Quando ele me ensinou a atirar e a lutar, a confiar mais nas armas, nos instintos e reflexos e menos nas pessoas e em seus sentimentos.

Quando me tornei promotor, júri e juiz. Quando decidi tirar o dom que me foi negado tão dolorosamente pelo destino. Foi quando me tornei a Morte.

No fundo da caixa ainda estavam as alianças de noivado. Olhei o relógio. Oito horas da noite. Eu havia passado horas no meu transe apocalíptico. Guardando a foto na caixa, fechei-a e coloquei-a embaixo da cama novamente, respirei fundo e transformei as lágrimas de meu âmago em força. Afastei a sombra do homem que um dia fui.

Hora de trabalhar. Não haveria espaço para sentimentos.

Abri o guarda-roupa do antigo morador e me despi, pegando as roupas de trabalho.

Vesti a calça de couro e a camiseta de manga comprida e gola alta preta.Colete a prova de balas, fino e discreto, mas eficiente. Coisa cara. Em seguida os coturnos de cano alto e o coldre de ombro. Guardei minhas facas nos suportes da calça, fui até a sala e coloquei as pistolas no coldre. Voltei ao quarto e peguei por fim meu sobretudo preto de trabalho, mais longo e pesado. Peguei o gorro preto e guardei em um dos bolsos do sobretudo, juntos com os dois silenciadores.

A Morte se preparando para o mais apoteótico espetáculo. Ceifar vidas.

- Hoje, Harris Coltrain, você verá quão cruel o destino pode ser. – Sentenciei.

Preparado para o que me esperava, caminhei lentamente pelo clima úmido da rua de noite sombria, os coturnos estalando sobre os pedriscos da calçada molhada. Cheguei ao estacionamento e peguei meu Opala, dirigindo calmamente.

Meia hora depois eu chegava ao local. Parei o carro uma rua antes, acoplei o silenciador a uma das pistolas e desci. Caminhando rapidamente, sorri por não precisar estudar a casa e as formas de entrar. Hoje seria à minha maneira. Hoje seria minha poesia.

Vesti o gorro, cobrindo minha cabeça completamente, apenas os olhos azuis à mostra. Arma na mão. Se alguém passasse na rua naquele momento iria descobrir se Deus realmente existe. Avistei a casa ao longe. Não foi difícil reconhecer.

Uma casa realmente grande, com um sobrado imenso e um portão extremamente largo.

A casa tinha traços rústicos, como um chalé fora do lugar, uma chaminé longa de pedras se erguia encoberta por parte do sobrado. Uma bela moradia.

Andando pelas sombras da noite imperturbável, distante o suficiente para não ser notado, pude ver os dois seguranças na entrada, altos, fortes, vestindo os característicos ternos e óculos escuros, e em posição de vigia.

26 de Setembro de 2010. Por: Régis S. Oliveira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário