Entrei no carro e voltei ao estacionamento, guardando-o e seguindo a pé até o apartamento, as armas e a carta guardados em meu sobretudo.
Entrei e tranquei a porta, deixei as armas em cima da pequena mesa da sala e tirei o sobretudo e o chapéu, jogando-os ao sofá.
Ainda na sala, tirei minhas roupas e deixei-as no chão, caminhando até o banheiro.
Liguei o chuveiro repleto de teias de aranha e deixei a água esquentar enquanto me olhava no espelho rachado. Cabelos pretos curtos, olhos azuis tristes. Rosto sisudo, boca bem desenhada e nariz fino. Corpo esguio, porém forte e bem definido para os meus 32 anos. Mãos de dedos longos e unhas bem feitas. Cicatrizes de antigos serviços nas costas e nos braços. Ossos do ofício. Esse era eu. Anthony Darren.
Solitário e defensivo, amargurado e derrotado, exaurido e melancólico. Tirava vidas de pessoas para viver. Irônico, a imagem da morte. O espelho já estava embaçado pelo vapor da água quente. Deixei a água bater em meu corpo sentindo o choque térmico.
Depois do banho, me sequei e vesti um jeans preto desbotado, uma camiseta preta e meias brancas. Fui até a cozinha, peguei a caixa de cereal e a garrafa de leite na geladeira. Voltei ao quarto, sentei na cama e comi cereal regado a leite gelado, de forma lenta e maquinal.
- Às vezes você bebe o leite, às vezes o leite bebe você. – Conclui.
Deixei a caixa e a garrafa no chão, estalando os lábios e esfregando os cabelos ainda úmidos para retirar o excesso de umidade. A janela estava aberta.
Olhando o clima frio e úmido lembrei do dia em que morri.
O dia em que aquela mulher me matou. Caminhei até a cama e debaixo dela peguei uma pequena caixinha de sapato empoeirada. Abri-a e peguei uma foto aonde o rosto de uma linda mulher aparecia a um canto. O Sol iluminava seus cabelos castanhos deixando-os ligeiramente alourados. Os óculos escuros escondiam seus belíssimos olhos castanhos, e o sorriso branco e esplendoroso trazia leves rugas ao seu nariz fino e bem desenhado. A pele branca era ligeiramente rosada nas maçãs do rosto e na ponta do queixo. Ao fundo havia flores e mais flores, de várias cores diferentes, como um lindo jardim secreto. Algumas pessoas passavam mais ao fundo, perto de postes de luz de três lâmpadas. Lígia Maggiorini Bueno, 23 anos, em Paris. Eu bati a foto. Fizemos aquela viagem para comemorar nosso noivado. Mas um dia acordei ao lado de um bilhete que dizia apenas adeus e sinto muito, a aliança inerte sobre a cama. Foi então que morri.
26 de Setembro de 2010. Por: Régis S. Oliveira.
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