Depois de um tempo que não pude calcular cheguei ao bar. Desci do carro e entrei. Ray estava sentado atrás do balcão, o rosto apoiado na mão, fazendo palavras cruzadas. Olhou rapidamente para a porta, surpreso.
- Veja só se não é o meu garoto Tony! – Disse com sua voz rouca habitual.
- Gin tônica. – Eu disse enquanto sentava à sua frente no balcão. Ele notou que eu não estava em minha melhor hora.
- Noite difícil?
- Trabalho.
- O que houve?
- Matei um canalha contrabandista.
- Você nunca teve problem...
- Matei uma garota. 19 anos no máximo. Ela estava assustada. Absolutamente amedrontada. E eu a matei sem hesitar. Ela provavelmente sequer sabia por que estava sendo caçada, mas como sempre, a Morte tirou-lhe o dom da vida sem perguntar se podia.
Eu falava calmamente, olhar baixo, encarando o tampo do balcão. Uma lágrima caiu diretamente no balcão. Surpreso, eu olhei para Ray. Meu amigo, o pai que não tive.
- O que há comigo, Ray? O que há comigo?
E de repente Ray me olhou com a sabedoria de um homem idoso. De alguém que viveu e sabe o que é sofrer, o que é pisar em cacos de vidro dia após dia e ver o sangue gotejar. Me olhou com a altivez de um homem que já tinha vivido muitos amores e infinitas dores. Que já tinha enterrado amigos. Perdido motivos para continuar.
Preparou um drink para ele e deixou meu copo com gin tônica no balcão. Deu a volta. Sentou-se ao meu lado e falou com sua voz rouca inconfundível. Desta vez sem o costumeiro humor debochado.
- É Tony... Parece que a Morte também inveja a vida.
Olhei-o enquanto passava a mão nos cabelos de minha nuca, as lágrimas ainda caindo. Eu tinha dinheiro. Vivia naquele apartamento para não chamar a atenção, mas neste ritmo de trabalhos, poderia me aposentar aos 36 anos. Mas tudo que eu queria era abandonar aquilo tudo. Bebi um gole maior do que esperava e engasguei.
- Você pensou na Lígia, não é?
Apenas balancei a cabeça concordando, as lágrimas secando em meu rosto.
Ray bebeu um gole do seu drink e acendeu um cigarro. Soltando a fumaça pelo nariz, falou a verdade da forma mais compreensiva possível.
- A Morte é poderosa, Tony. Mas ela também chora...
Bebendo outro gole do meu drink, apenas concordei fitando o nada.
- Sim... A Morte também chora...
26 de Setembro de 2010. Por: Régis S. Oliveira.
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