Quando não é pelo calor, é pelo frio. Pela chuva. Pelo vento. Obturação do filho às nove. Passar no bar antes de ir pra casa. Jantar com a namorada. Sexo casual com o marido alheio. Algum famoso idiota no programa de entrevistas das onze.
Céus, como odeio essas peças de carne dotadas de movimento e fala, mas não de cérebro.
Mais 20 minutos caminhando pela garoa e cheguei ao estacionamento no qual meu Opala preto está guardado. Paguei a mensalidade do estacionamento e saí sem pressa. Coloquei o CD de jazz de sempre e segui calmamente. Outros 15 minutos dirigindo e cheguei ao lugar que preciso. Aparentemente uma casa de família rica. Muros altos brancos e portão largo escuro. Linhas de alta tensão beirando o topo dos muros. Toquei a campainha do interfone.
Alguns segundos de espera e uma voz masculina de falsa alegria atendeu.
- Em que posso ajudar?
- Preciso de armas.
A voz rapidamente tornou-se rouca e irritada, perdendo o falsete de recepção.
- Ah, é você. Cale a boca e entre logo! Estamos nos fundos.
Subi as escadas e entrei na casa bem cuidada, com móveis de família e ar decente. Abri a porta do que deveria ser um quarto comum, composto de cama, mesa de cabeceira e um closet. Entrei no que deveria ser o closet e encontrei dois homens sentados a uma mesa grande e redonda de madeira, despojados e despreocupados. Prateleiras jaziam no lugar de roupas, cheias de armas e munições. Um péssimo esconderijo.
Estavam jogando pôker. Parei perto da mesa e cruzei os braços, olhando de forma inexpressiva. Um dos homens adiantou-se, 43 anos, alto, braços musculosos tatuados, o queixo largo, cabeça raspada como a dos militares e barba por fazer, boca fina crispada. Os olhos pretos e miúdos me encaravam com raiva. O mesmo Craig de sempre.
- Você não pode falar que precisa de armas na calçada, merda! Use o código como nós usamos, seu idiota! Se eu tiver problemas com o Chefe por sua culpa, te mato!
- Sim, claro. Mata sim, Dorothy...
Craig aproximou-se fechando os punhos e tentou me intimidar com sua aparência de gorila super-nutrido, estalando os ossos do pescoço.
Franzi a testa e encarei-o, meus olhos azuis denunciando meu tédio com a situação.
- Mesmo Craig? Quer apanhar essa hora da manhã?
- Seu filho da... – Disse ele entre dentes erguendo o punho pesado.
26 de Setembro de 2010. Por: Régis S. Oliveira.
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